Por Thiago Aguiar | Teo Esportes
Existe um momento crucial no macrociclo de preparação para uma prova de trail running em que o treinamento deixa de ser apenas “acumular quilômetros” e passa a ser um processo de adaptação real, rigorosa e cirúrgica ao ambiente hostil da montanha.
Para os atletas que vão encarar o desafio da La Misión Brasil em agosto, seja nas passadas explosivas dos 7km ou na jornada extrema dos 110km, esse divisor de águas chegou: entramos oficialmente na fase específica da preparação. É justamente neste período que os atletas consistentes consolidam sua evolução… enquanto outros começam a cometer erros que cobram um preço alto no dia da prova.
A La Misión não é uma corrida comum. Ela exige um refinamento extremo da resistência física, inteligência tática, resiliência mental e, acima de tudo, uma adaptação muscular primorosa ao terreno técnico. A mítica e imponente Serra Fina não perdoa excessos, erros de ritmo (pacing) ou negligência com os detalhes regulamentares.
Como treinador de corrida e trail running há 13 anos estruturando metodologias voltadas para a ultradistância, acompanhando atletas de todos os níveis, aprendi que a especificidade nesta reta final é o que dita se a sua prova será uma experiência memorável ou um calvário. Além de planejar as planilhas da assessoria, vivi a intensidade e a beleza da La Misión cruzando os pórticos de dentro do percurso nas distâncias de: 35km (por duas vezes), 55km e 80km.
E existe uma máxima soberana no trail que sempre se confirma: quem respeita a grandiosidade da montanha chega mais longe.
O que realmente define a fase específica no Trail Running?
Diferente do cenário do asfalto, onde a especificidade está atrelada quase que exclusivamente à manutenção de ritmos-alvo e volumes controlados, na montanha o foco migra para variáveis biomecânicas e fisiológicas muito mais complexas. Entrar na fase específica significa mimetizar com precisão o relevo e as dificuldades que a Serra da Mantiqueira vai impor. Isso se traduz em pilares essenciais de treino:
- Acúmulo planejado de altimetria: Ganhar metros de elevação positiva de forma progressiva e estruturada;
- Adaptação neuromuscular para subidas longas: Construir eficiência metabólica em inclinações severas;
- Treinamento de força excêntrica: Blindar os quadríceps para suportar descidas técnicas e destruidoras;
- Desenvolvimento mecânico de Power Hiking: A arte de caminhar rápido e com baixo custo energético subindo as cristas;
- Periodização nutricional em movimento: Treinar o trato gastrointestinal para absorver carboidratos e eletrólitos sob esforço prolongado;
- Resistência à fadiga residual: Acostumar o corpo e a mente a correr em estado de depleção de energia;
- Aprimoramento em terreno técnico: Desenvolver propriocepção em trechos de pedras soltas, raízes e escalaminhadas;
- Validação de equipamentos: Testar mochilas, bastões, vestuário e sistemas de hidratação exaustivamente.
É quando o treino deixa de ser “genérico” e passa a simular exatamente o que você vai encontrar na prova.
La Misión: Cada distância exige uma estratégia fisiológica distinta
Um dos maiores equívocos cometidos pelos corredores é supor que a preparação entre as categorias da La Misión se diferencia unicamente pelo volume de quilômetros na planilha. Cada distância possui uma identidade fisiológica, uma demanda neuromuscular e uma exigência mental completamente singulares.
| Distância | Foco Principal | Desafio Técnico | Estratégia Chave |
| 7km / 12km | Potência e Limiar | Inclinações agudas | Pacing controlado no início |
| 20km / 35km | Power Hiking | Escalaminhadas e descidas | Eficiência em subidas e bastão |
| 55km | Resistência periférica | Fadiga residual | Treinos back-to-back |
| 80km / 110km | Gestão de Danos | Privação e cenário extremo | Simulações e nutrição rigorosa |
7km e 12km — Intensidade, Potência e Técnica
Não se deixe enganar pelas distâncias curtas. Devido ao perfil altimétrico agressivo e às inclinações agudas da Serra Fina, estas provas entregam uma altíssima intensidade e exigem um limiar de lactato bem treinado. O atleta consegue impor ritmos fortes, porém pagará um preço altíssimo se largar acima do planejado.
20km e 35km — O Verdadeiro Portal da Montanha
Na distância de 35km, o corredor encontra a essência pura e bruta da Serra Fina. Subidas intermináveis, trechos severos de escalaminhada, cristas expostas e descidas verticais exigem muito do físico. O trecho clássico entre o Pico Tambo e a Casa de Pedra funciona como o divisor de águas.
Nota do treinador: Atenção especial à descida técnica após o Campo do Muro. O atleta que negligenciou o ganho de força excêntrica nos quadríceps verá a musculatura travar por completo nesta seção.
55km — Onde a Ultramaratonagem se Consolida
Estamos falando de uma ultra de montanha genuína, com mais de 4.000 metros de ganho de elevação acumulada. A emblemática subida até a Pedra da Mina dita o ritmo de sobrevivência da jornada. Exagerar na dose logo cedo significa colher um desgaste insustentável.
80km e 110km — Gestão Crítica de Danos e Sobrevivência
A prova transmuta-se em um grande jogo de xadrez estratégico e tomada de decisões sob estresse severo. O objetivo do treino não é blindar você para que não sinta dor, mas sim capacitá-lo a continuar avançando apesar dela. A mítica distância de 110km não tolera nenhum tipo de improviso.
Há uma falsa crença de que “quanto mais destrutivo for o treino, melhor preparado o atleta estará”. Os desvios mais recorrentes são:
- Excesso de treinos em intensidades de limiar sem o devido descanso;
- Falta de períodos de recuperação e regeneração tecidual;
- Longões extenuantes vazios de propósito tático;
- Abandono das sessões de fortalecimento muscular;
- Negligência nos treinos técnicos de descida e na padronização da suplementação.
A Ciência do Fortalecimento: O seu escudo protetor
Treinos de força e musculação funcional nunca foram opcionais para o trail runner — na La Misión, tornam-se o seu seguro de vida. O trabalho de força entrega vantagens diretas:
- Prevenção ativa de lesões ligamentares e tendíneas;
- Aumento expressivo da estabilidade do core e propriocepção;
- Melhora na economia de corrida em subidas íngremes;
- Proteção da integridade articular e resistência à fadiga de freio.
O axioma é simples: o atleta que fortalece com seriedade desce com muito mais técnica e fluidez.
Estratégia Nutricional: Quem não treina o estômago, quebra
A engenharia nutricional assume protagonismo absoluto. Manter a lucidez mental após 6, 12 ou 20 horas de esforço é um privilégio de quem alinhou a ingestão milimétrica de carboidratos, sódio e líquidos. O estômago também se treina. O dia da prova deve ser apenas a execução previsível de um roteiro exaustivamente ensaiado.
A Montanha sempre cobra o devido respeito
A Serra Fina é um ecossistema fascinante, mas que exige humildade técnica. Ela recompensa com paisagens inesquecíveis os que se prepararam com paciência, e pune com severidade os ansiosos.
Nesta reta final para a La Misión Brasil, concentre o seu foco na inteligência de execução, zele pela sua recuperação e confie no processo desenhado pela assessoria. A sua prova não se inicia quando o cronômetro oficial dispara em agosto. Ela está acontecendo agora, em cada repetição de subida e em cada escolha estratégica.
Bons treinos, execute o plano com excelência e nos vemos no topo da montanha!






